I
O por-do-sol
Senta-se no topo do prédio.
O calor é tanto que derrete o concreto.
O sol penetra no edifício e some.
II
O cuspe do oitavo andar
Bate na calçada e estala.
III
O espanador escapa da mão de alguém e cai do décimo andar.
Suicídio?
IV
A veneziana limpa destoa da fachada do prédio.
foto:basicregisters – momartins22 – registrosbasicos
V
Janela.
Borderline.
Prisão.
Liberdade.
VI
A toalha xadrez é sacudida violentamente.
Da bandeira da manhã desprendem-se cacos de pão
Que seguem ao vento.
VII
A criança, o gato, o vaso de manjericão e as roupas no varal
Observam a paisagem através da grade de proteção do oitavo andar.
VIII
Brise
Ouço Phillip Glass.
A gata brinca com uma bolinha high-tech que brilha pela sala escura.
Através do brise as luzes da cidade mergulhadas na umidade da noite.
Carros sobre o viaduto. Dragão chinês serpenteando entre edifícios.
Vigésimo sétimo andar.
Copan.
No hotel em frente, movimenta-se, entre lâminas da cortina, o hóspede que tem como teto o chão do restaurante vazio.
Cincoenta e nove segundos no elevador.
Térreo.
Ouço hip-hop.
Um gato esgueira-se atrás da banca de jornal.
Através do vidro da portaria crianças cheirando cola mergulhadas no frio. Um carro da polícia, OVNI da ordem, com suas luzes de carrossel, ilumina o quarteirão.
O guardador de carros movimenta-se entre parachoques.
O caixa eletrônico está vazio.
Monica Martins 2004