Ainda estou confusa. Não consigo me lembrar em que momento resolvi deixar tudo para trás. Como cheguei ao terminal do metrô, nem do peso da bagagem.
Chove. Há dias chove muito.
As hortências melaram numa pasta lilás.
A luz varia pouco. Nuvens densas, muitas, quase uniformes na cor, parecem estacionadas sobre o vale para sempre. O verde pesado se apóia na terra. Nas montanhas o vapor cobre os altos. Mais distante a floresta de pinhos perde o matiz e se mescla no tom do ar. Cinza azulado.
Sigo as folhas mais altas que sinalizam a estrada submersa. A sola de borracha pisa poças e pedregulhos. O andar empapado é o único som que se contrapõe ao da chuva. O ar cheira resina. Agulhas dos pinheiros cobrem o caminho de terra mole.
Tenho a desagradável sensação de ter esquecido de fazer coisas importantes, mas não; a chave sob o tapete, sem bilhete. A água e ração do gato, fechar o registro do gás, ativar a secretária eletrônica. Ah sim, o afago de despedida no bichano. É, era isso. Tem comida congelada prá um mês, as camisas e cuecas estão passadas na gaveta, o resto se resolve.
Acho que fiz bem em pegar as fotos e, na estrada, depois de rasgadas, jogá-las pela janela.
Essas cenas onde os abandonados pegam as fotos e perguntam para elas
- ̋ Por que você foi embora? ̋ ,
muito me aborrecem ou mesmo, me fazem rir. O sujeito da foto quase sempre esteve por perto e tal pergunta poderia ser dirigida a ele, e não a um pedaço de papel fotográfico. Ter a foto de alguém sobre a estante, a mesa, no camafeu, traduz uma possibilidade de conversa – a não ser que a foto seja aquela oficial que fica sobre nossas cabeças no escritório. Aí não tem papo mesmo. É passar o paninho com álcool no vidro e olhe lá.
Desde quando as dores de cabeça foram se tornando reais e não desculpas? Quando comecei a me virar sobre o lado direito, na cama, oposto a sua face?
Quando, além do copo d´agua, comecei a por sobre a mesinha perto de mim aspirinas? Deus, não me lembro; as camadas do tempo se acumularam numa banda única, sobrepostas e indefinidas. De imediato sei que preciso ir à vila o mais breve possível fazer contato com o advogado, mas não sei por que lembro de meu teddy bear de lã de carneiro que cheirava gostoso. E das jabuticabas quentes do sol que estouravam entre meus dentes. O ruído da casca rachando na boca – truc – e seu gosto doce e branco estão acontecendo neste instante. O tempo das jabuticabas já se foi. Estamos em janeiro. Quarenta anos depois.
Tenho fome e frio. A sacola de lona pesa mais da água da chuva do que das pequenas compras que carrego. O velho guarda-chuva está realmente velho. Suas varetas dobraram com o vento, entre eu e o horizonte tem um pedaço da capa do Batman. Melhor fechar de vez.
Na encosta, perto do rio das trutas um cavalo parado. Será que ele me vê? Assovio com o dedo entre os dentes e ele não responde batendo o casco no chão ou correndo em minha direção. Isso é coisa pra cinema.
Subo os degraus do pequeno chalé. Deixo as botas na varanda. Tiro as meias. Meus pés suados estão brancos com as juntas avermelhadas. Chulé.
Janeiro. Sul de Minas. É aqui onde quero estar.
O calor do fogão a lenha cria uma bolha seca, um campo impermeável que mantém a umidade longe dos ossos, além das paredes. Ponho Joni Mitchell, riscado e embolorado, na vitrola que ainda funciona. Preparo o bule, abro os pacotes do pão e da geléia. Abro a lata do chá com ajuda do garfo. Menta.
Pequena alucinação me arrepia. Sacudo a cabeça, ví a cozinha da fazenda, o cachorro Tarzã deitado na soleira da porta, o cheiro do sabão de cinzas com soda que Tininha fazia. Diminuo de tamanho e tudo fica grande. Tenho três anos agora. Choro não sei por quê. Alguém me dá um pedaço de bolo de fubá com erva-doce. Quero colo e quando ergo os braços volto pro agora. Alice sem sua gata Naná. Estranho. Isso vem me acontecendo frequentemente. Por isso estou aqui, Vale do Batismo, Monte Verde. Estava me sentindo como com queimaduras graves que se você não assopra dói. Se você assopra dói também. No limite.
A água ferve. Olho pela janela que reflete o interior. Fora vagalumes. Poucos e lentos. A chuva parou. Acendo o cigarro numa das velas sobre a mesa. Ao aproximar-me da chama outro rosto – de um homem – contra o meu, também acende um cigarro. Vejo meu reflexo em seus olhos.
Assopra a fumaça para o alto com elegância e me observa. Sinto-me tão à vontade como nunca em minha vida. De alguma forma ele era conhecido…Apóio os pés com as meias de lã sobre a mesa, o cinzeiro no colo.
Ele se serve do chá segurando a caneca com as duas mãos mantendo o cigarro entre os lábios. Tiro de sua boca e apoio no cinzeiro. Anda pela sala e para sobre a prancha quando vê minhas aquarelas, as pastilhas, pincéis.
Toma do chá. Volta e senta a meu lado. Traga e apaga o cigarro queimando perto do filtro branco. Inclina seu corpo em minha direção, acaricia minhas mãos e diz, numa voz grave, baixa e suave.
̏ Bem vinda querida, sabia que viria.̋
No IML tentam me identificar. Meus órgãos já foram vendidos para o tráfico, os que ainda prestavam. Na Teodoro Sampaio o trânsito deve estar um inferno.