Imagino a estória daquela xícara cor de gemada com mais 10% de magenta.Que mão pintou sua borda preta, fina linha onde apóio meus lábios para tomar um café. Frio. Tão frio quanto o pigmento aplicado em sua superfície externa.
Inglaterra década de 30. Não seguiu o padrão “chintz” tão elegante na época.Talvez fosse em sua origem apenas “inglesa”, apenas amarela com uma linha negraem sua borda. Assim. Simples. E o lote à espera de um comprador, já que ninguém queria só amarelo, só uma linha. Só. As pessoas queriam chintz para combinar com o papel de parede de sua sala de visitas, com o abat-jour em tecido floral com pregas na sua orla, e com o quadro de um pato branco na parede. One White duck on your wall.Isn´t it Just too damn real? Já cantou Ian Anderson na década de setenta. Então, muito bem embalados, lotes da série seguiram de navio para o Porto de Santos. De lá, seguindo a rota Anchieta, foi descarregada no Mappin.Mãos delicadas e precisas, não necessariamente femininas, aninharam uma amostra do conjunto na vitrine com o preço ao lado. Novidade da época, etiqueta de preço ao lado do produto.
“Cerâmica Inglêsa”.
I N G L E S A era termo suficiente para elevar aquela simples xícara e o que a acompanhava: pires, prato de sobremesa, bule de chá, bule de café, bule para o leite e açucareiro, a um padrão de objeto de desejo, pelo qual se sacrificaria cada centavo para sua aquisição. Cerâmica Inglesa no Mappin, e ainda amarela com um fio preto na borda. Irresistible. Absolumment nécessaire.
Resolveram se casar. Seguiu-se os convites. Suas relaçõe eram variadas, gostavam de todos, mas o coração da noiva e de sua mãe batiam forte quando um convidado enviava um presente embalado pelo Mappin. Gostavam de todos mas gostavam mais da embalagem do Mappin. Estes eram colocados em destaque na sala do pequeno sobrado geminado. Cuidadosamente aberta a caixa revela, elegantemente arranjados, o conjunto de chá e café inglês. Amarelo! Com uma tira preta! Temos de nos habituar a essa cores modernas, é melhor que o brancomesmo, tão comum, tão banal. Ah esses ingleses , são fantásticos, fundaram Calcutá e hoje tem todo o continente, comenta o pai da noiva orgulhoso enquanto segura desajeitado a xícara leve, sob a crítica de sua mulher: cuidado pra não quebrar, você não está acostumado com essas coisa, seu bruto.
Desnecessário descrever, sob a tensão do clima do casamento, a discussão que aconteceu, com choros, e resmungos portas a bater e a moça a observar o que a aguardava, depois que se despisse do vestido de noiva. Depois que o príncipe virasse sapo e ela passase suas tardes a costurar para ajudar nas finanças da casa, com o barrigão contra a mesa da máquina a pedal.
Ceramica Inglesa.
Nasce a criança. Primogênito. Alegria na família. Orgulho do pai. Xodó dos avós. Mal sabia que carregaria o dever do mais velho por toda sua vida. O provedor, o responsável o exemplo, o rei. Ufa! Apenas um bebê que se viu perdido naquele mundo de ar, sem limites, sem a água morna a lhe embalar no nhém nhém nhém da Singer, mal nascia e já tinha etiqueta com instruções, como na vitrine do Mappin.

Foi essa criança quem me ofereceu café frio na xícara inglesa, não sem antes ressaltar: é inglesa, de família, como se eu não fosse acostumada com essas bobagens vazias, típicas de família quatrocentona falida que perde tudo mas não dispensa o choffeur, ou de parvenus da roça que criam seu perfil buscando instruções em magazines da moda. Lí num livro que….vi numa revista que… (Viva Guttemberg).
É essa criança que, ainda sem perceber, segue as instruções da etiqueta que recebeu ao nascer.
ilustração: momartins22

foto:basicregisters